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Setembro 2014

A Fotografia enquanto instrumento de intervenção social


O fotógrafo e produtor cultural fala com José Eduardo Agualusa sobre a paixão pelos Hereros

A Fotografia enquanto instrumento de intervenção social

Intimidade. Talvez esta palavra consiga resumir o trabalho que o fotógrafo brasileiro Sérgio Guerra expõe actualmente no Palácio Medici Riccardi, em Florença, Itália. Uma impressionante intimidade com algumas populações nómadas do Sul de Angola, cuja vida nos é mostrada, imagem a imagem, do nascimento até à morte. Nesta entrevista, Sérgio Guerra fala da sua paixão pelos Hereros, das descobertas que fez, dos conflitos com a pasta da Cultura, de momento dirigida por Rosa Cruz e Silva, e da desconfiança com que a sua obra é recebida pelos outros fotógrafos. 

Como surge o fotógrafo Sérgio Guerra?

Comecei a fotografar por volta de 1977,  a partir de uma viagem que fiz pelo nordeste do Brasil com um amigo fotógrafo, Ricardo Vilas Boas.  Foi através dele que tive o primeiro contacto com um laboratório fotográfico – a minha primeira câmara foi uma Pentax. Estava em Salvador na época da ditadura militar, onde estagiei e trabalhei no Tribuna da Bahia, fazia matérias de rua – manifestações estudantis, acções sociais, etc. – e trabalhava no laboratório. Depois fui para o Rio de Janeiro , em 1980, onde trabalhei com o Roberto Cheferrino – um fotógrafo de publicidade. Nessa altura, fiz também um pouco de cinema com o André Faria. Regressei a Salvador um ano depois, outra vez para trabalho de laboratório, mas agora numa agência de publicidade. Este percurso decorreu até 84, quando passei a dedicar-me à produção gráfica e abandonei a fotografia. Retomei uns dez anos mais tarde, quando comecei a fazer paraquedismo. Voltei à fotografia por causa do paraquedismo, para fotografar os saltos.

Mas a fotografia, com a intenção de publicar, isso só acontece em Angola, certo?

Sim, apesar de já ter feito anteriormente fotografias para campanhas políticas e eventos culturais, foi em Angola que surgiu a possibilidade de publicação de um trabalho mais autoral. Vim para Angola em 97, trabalhar em marketing institucional e político.  A partir de 99 comecei a fazer a cobertura da guerra, acompanhando as forças armadas, e passei a dedicar-me à fotografia de uma maneira mais séria, um pouco para complementar o trabalho de televisão e rádio que fazíamos.

A sua fotografia é sobretudo de natureza documental…

Sim. A fotografia é para mim uma ferramenta com duas funções: por um lado,  divulgar o que venho testemunhando; e por outro,  uma forma de intervir socialmente. A minha fotografia tem um claro viés social.

De que forma?

Em Angola comecei por divulgar a existência de uma vida para além da guerra. O meu primeiro livro, Álbum de Família, é uma homenagem à forma como fui recebido em Angola, com muito carinho. O segundo, Duas ou Três coisas que eu vi em Angola, também. Já o  terceiro, Nação Coragem, pareceu-me um pouco mais ambicioso – mas todos eles cumprem o desejo de mostrar uma realidade que decorria para além da guerra. O Parangolá, o meu quarto livro, é um exercício crítico em cima da realidade urbana, que pretende mostrar a invasão das antenas parabólicas em Luanda. Depois desse ensaio das parabólicas, descobri o mercado de São Paulo, em Luanda, que me remeteu imediatamente para a Feira de São Joaquim, na Bahia, e a tudo o que eu tinha vivido naquele espaço, ou seja, à minha proximidade com África, antes de África. Surgiu então a ideia de fazer um paralelo entre os dois espaços – os dois mercados. Têm histórias semelhantes, foram ambos marcados por grandes tragédias e depois relocados para locais perto de igrejas. A Feira de Água de Meninos, em Salvador, que sofreu um incêndio e tornou-se a Feira de São Joaquim; e o Mercado do Chamavo, que sofreu um desmoronamento e tornou-se o Mercado de São Paulo. 

Outra similitude, é que ambos os mercados estão ou estavam ligados a formas de religiosidade popular de matriz africana…

Sim, sim, foi isso que mais me impressionou no início. Encontrei à venda, no mercado de São Paulo, produtos de medicina tradicional que me remeteram de imediato para a Feira de São Joaquim, que é o maior centro de abastecimento das religiões afro-descendentes na Bahia. Foi a partir desta similitude que surgiu a ideia de traçar um paralelo entre estas duas realidades, para que as pessoas percebessem o quão próximas elas estão. Depois começamos a pensar em fazer a exposição na própria Feira de São Joaquim, e assim foi, as fotos foram expostas lá, à responsabilidade dos feirantes. Naquela época, a feira vivia uma certa depressão, abandono, e a exposição trouxe de novo a feira à cidade. E foi desta exposição que surgiu o meu quinto livro, Lá e Cá. Mas não ficamos por aqui, um tempo depois quisemos potencializar o projecto, ampliando o espaço da mostra a toda a cidade, para que ela se pudesse rever, e nasceu o projecto “Salvador, Negro Amor”. Tentamos  fazer o mesmo em Luanda,  mas não foi possível por causa da reforma do mercado São Paulo, que durou alguns anos.

Terá sido a maior exposição ao ar livre realizada no Brasil…

Sem dúvida. Foram mais de 1500 painéis gigantes espalhados pela cidade. Dez mil metros quadrados de painéis expostos em Salvador. Naquela altura, procuramos até o Guiness para fazer o registo, mas eles tinham um registo de fotografia referente a uma exposição promovida pela Hewlett-Packard (Hp) – onde as pessoas mandavam as suas fotos e eram todas expostas em tamanho reduzidos numa única sala – e não ficaram muito interessados em abrir um outro segmento onde poderiam ter a maior exposição individual, ou mesmo a maior a céu aberto. Já para não falar da custo super elevado que a organização cobra para fazer a comprovação do record.

Como é que os outros fotógrafos olham para o seu trabalho?

Com desconfiança, com muita desconfiança, porque pode, por vezes, parecer que estou  a ocupar um espaço que não me cabe. Eu não faço fotografia profissionalmente, faço movido pelo desejo de intervir, de me inserir na sociedade que retrato. Sei que o meu trabalho divide os fotógrafos, mas sempre tive e tenho muitos amigos fotógrafos. Alguns deles afastaram-se de mim após essa exposição na Bahia, acharam que aquilo era demais. Como é que eu estava ocupando aquele espaço todo?!?

Isso incomoda-o?

Não, não. Acho que a gente vai desfazendo os equívocos e resistências com o exemplo, com a própria atitude.

No caso de Angola, mantém algum diálogo com os fotógrafos angolanos?

Pouco, pouco…

E a reacção é diferente?

Sim, é diferente, mas há sempre alguma desconfiança. Acho que é reforçada por eu  ter outras actividades  e não me dedicar exclusivamente à fotografia. 

A minha impressão é que em Angola havia mais espaço livre, sobretudo quando começou a publicar. Tirando os fotojornalistas, alguns excelentes, havia poucas pessoas a fazer fotografia artística ou documental…

Sim, durante a guerra, na época em que publiquei os meus primeiros livros, não existiam muitos fotógrafos a trabalhar em Angola, havia o Quintilhano e mais alguns poucos que se destacavam. Mais tarde chegou o Silva Pinto, e a seguir toda uma geração de jovens fotógrafos, como o Kostadin, o Kiluange kia Henda, o Chilala Moco, e tantos outros.

Queria que me falasse um pouco da origem dessa paixão pelos Hereros. Como os descobriu?

Quando viajava com o exército para cobrir a guerra, em  99,  deparei com eles… Foi uma grande emoção…

Surpreende-o que nenhum fotógrafo angolano tenha produzindo um trabalho consistente sobre essas populações?

Sim, sim, surpreende. Alguns têm fotografado, sem aprofundar muito a questão. No entanto, há o trabalho do Rui Duarte de Carvalho. O Rui interessou-se e filmou e fotografou, para além de uma ter deixado uma obra antropológica consistente sobre essas populações.   

É verdade. O que me parece é que no seu trabalho existe uma intimidade que o próprio Rui Duarte nunca conseguiu alcançar. Por exemplo, filmou um óbito, um parto, rituais de iniciação, há até uma cena impressionante de higiene íntima das mulheres…

São trabalhos de natureza diferente, o Rui tinha um objetivo antropológico para além de um documentarista, e muitas vezes isso recomenda uma certa distância para a observação. No meu caso, a maior motivação era o contacto com eles, era conhece-los e aí foi um processo de confiança que se criou. Eles abriram tudo para a gente. Fotografámos um parto, óbitos, circuncisão…

Chegou a falar com algum destes antropólogos que trabalhavam com essas populações, como o Rui Duarte de Carvalho e o Samuel Aço, infelizmente já falecidos?

Tentei falar com os dois, as reacções foram muito diferentes. O Rui não se mostrou receptivo, não quis falar comigo. A reacção do Samuel Aço foi muito diferente, ele ajudou-nos, deu-nos referências, contactos, integrou-se no projecto. Nós próprios fizemos questão de apoiar o Centro de Estudos do Deserto, que ele criou. O Samuel estava realizando um trabalho maravilhoso, um mapeamento das transumâncias, de forma a evitar que a concessão de terras afectasse a vida dos pastores em busca do pasto, como é comum em épocas secas. Essa é uma preocupação que partilho, como é que esses pastores vão conseguir sobreviver se cercarem as áreas onde transitam?

No seu trabalho enquanto fotógrafo tem testemunhado esses conflitos?

Um pouco, sim. No Chitado, no Rio Cunene,  há alguns anos, os pastores falavam disso. Quando os fazendeiros chegam parece que tudo vai ser bonito, prometem que haverá passagem para o gado, mas depois fecham as cercas e a conversa muda. Os pastores são mandados para as montanhas, onde não há água.

Pretende continuar a seguir estas populações nómadas, testemunhando esses choques?

Conseguimos dar uma grande visibilidade a essas populações, há seis anos que os fotografo, acho que o tema acaba por se esgotar um pouco…

Entendo, mas a verdade é que essas populações enfrentam desafios novos. A pergunta é se tenciona acompanhar essas transformações, enquanto fotógrafo.

Tenciono acompanhar enquanto pessoa, pois ao longo desses anos criei uma rede de amizades, e penso que isso ficará registado em mais imagens. O que hoje me mantém por lá é a amizade e o trabalho social que tento fazer. Criei uma escola com dois professores. Temos setenta crianças a estudar e ainda uma sala para adultos. Oferecemos um camião para o seu transporte e abastecimento e construímos uma loja para eles, que passaram a praticar preços mais reduzidos. Por exemplo, se um saco de fuba custava sete mil e quinhentos kwanzas, lá vendem a cinco – isso também traz um pouco de competitividade ao mercado, os outros comerciantes já se viram obrigados a baixar os valoreS. Mais do que fotografá-los, pela relação que aos longos dos anos criei, preocupa-me a sua qualidade de vida, o acesso ao básico. Acaba por ser uma contrapartida, eles ofereceram-me as imagens, eu devolvo com esse trabalho social.

Estamos também implantar uma aldeia cultural! Criamos uma infra-estrutura de cerca, curral e jango e convidamos 15 mulheres a lá construirem as suas casas. Elas já vivem lá. São sete mulheres muhimbas, seis muhacaonas e duas mútuas. Entre os Hereros, unir alguém mútua aos restantes é uma experiência nova, entre os mútuas e os restantes existem alguns desconfortos seculares. A ideia desta aldeia é torna-la um grande centro de produção artesanal dos Hereros, para que eles possam ter venda local ou até mesmo em Luanda. A partir do mês de Novembro levaremos artesãos para darem mais formação a estas mulheres. O importante é criar renda para que as pessoas possam ter mais autonomia.

Mas, sim, talvez eu produza mais um livro com fotografias dos Hereros, a preto e branco. Nos últimos tempos tenho fotografado muito a preto e branco, e esta ideia surgiu na sequência de uma conversa com o Alex Chacon, um director de arte chileno que está há muitos anos radicado no Brasil e de quem sou grande admirador . Ele deverá fazer a curadoria, o projecto gráfico e o acompanhamento em grafoica desse novo livro. 

Acha mais fácil fotografar ali do que na cidade?

Não. Em Luanda também nunca senti muitas dificuldades.

Muita gente se queixa da dificuldade de fotografar em Luanda. As pessoas reagem mal…

Se um desconhecido aparecer à minha frente com uma máquina fotográfica, a me fotografar, eu vou protestar na hora. É necessário estabelecer uma conversa, um contacto, para que as pessoas saibam qual é a sua intenção.

E no Brasil? Não acha que é diferente fotografar em Angola ou no Brasil?

É diferente, claro. No Brasil há uma cultura turística, há essa cultura da fama e da celebridade. Salvador, por exemplo, é uma cidade turística e muito aberta. Então, sem dúvida, em Salvador é mais fácil, mas também tem os seus problemas como a questão da marginalidade, que impõe um secretismo.

E entre Luanda e o Sul, no deserto, onde foi mais fácil fotografar?

Não tem muita diferença. Se chegar lá, aos Hereros, sem conversar primeiro, vai ter confusão. Como em Luanda. Vai ter confusão. Claro que em Luanda persiste um pouco essa cultura do partido único mas já não tem muito eco. Anteriormente as pessoas tinham receio de ser fotografadas até por questões de segurança…

Isso está a mudar?

Sem dúvida. Hoje há mais estrangeiros em Angola, que querem fotografar. E depois há o celular, o telemóvel, todo o mundo tem um telemóvel e está a fotografar com ele. Hoje todo o mundo fotografa.

No início qual foi a reacção destas populações ao reverem-se nas imagens?

Foi muito boa. Sempre procurei levar as fotos às pessoas retratadas. Entre os Hereros foi muito mais forte esse impacto porque eles quase não tinham acesso a isso.

Porque a maior parte das pessoas que vão fotografar não deixam a imagem?

Não deixam nada. Normalmente não deixam nada. Nem sequer regressam. Estão de passagem. Então essa atitude mudou a relação toda. No primeiro dia fotografávamos, e havia sempre alguma resistência. No segundo dia retornávamos com as fotos, e aí aqueles que se tinham recusado mudavam de posição. Normal.

Deste trabalho todo resultou um livro de grande dimensão, “Hereros – Angola”. Também ofereceu exemplares do livro aos retratados?

A primeira edição foi impressa no Brasil e contou com o apoio do BAI. Fizemos o lançamento em São Paulo. De regresso a Angola fui logo ao deserto mostrar o livro, fazer o lançamento lá. Fizemos uma exposição das provas do livro no meio do sambo. Foi muito bonito, muito interessante. Lembro de uma altura em que o soba Mutili viu o livro. Sentámos, conversámos, e então, finalmente, ele me olhou e disse – “agora sim, agora sabemos que é verdade”.

Este livro é o resultado de vários anos de visitas ao deserto?

Sim, o livro é o resultado de muitas visitas, a partir de 1999. Além disso, fotografei algumas mulheres em Luanda que iam vender o óleo de mupeque. Mais tarde voltei ao Virei, em 2009, só para fazer este trabalho e filmar um documentário. Passei uns sessenta dias entre Junho e Agosto de 2009. Mais vinte dias em Outubro para filmar um parto. O livro saiu em Maio de 2010.

E as exposições deste trabalho?

Fizemos uma primeira exposição em Luanda, no Museu de História Natural. Levámos o soba Mutili e o soba Bernardo…

Sem a presença da Ministra da Cultura…

Sim, a ministra não esteve presente. Nem o vice-ministro da cultura.

Porquê?

Pedimos todas as autorizações e indicações necessárias. Nunca deram muita atenção. Indicaram-nos o director da cultura do Namibe, Benjamim Fernandes, uma pessoa muito qualificada, com a qual conversámos muito. No Namibe recebemos apoio também do Governo Provincial e das estruturas do Ministério da Comunicação Social. A abertura da exposição era numa terça-feira, salvo erro, 27 de Julho. Na sexta anterior, um colaborador nosso recebeu um telefonema a dizer que eu devia encontrar-me com o Director Nacional de Museus, o doutor Mazambi Vulvu. Não entendi o motivo. Estávamos a concluir a mostra, e ao mesmo tempo a receber as autoridades tradicionais. Disse que que não poderia ir, mas se ele fosse ao Museu onde estávamos a montar a exposição poderíamos conversar.. Mandou dizer que não, que não iria. Passado um pouco recebi um telefonema da Ministra, Rosa Cruz e Silva, muito alterada, dizendo que eu tinha de ir à tal reunião, com o Director Nacional de Museus, caso contrário seria considerado um “inimigo” do Ministério da Cultura. Lá fui. Uma conversa simpática. Mais tarde vim a saber que a Ministra fizera uma força para impedir que alguns ministros fossem à inauguração. Mas o evento foi um grande sucesso, com presenças importantes como a do doutor Roberto de Almeida, o Cardeal Dom Alexandre, o Ministro do Interior, o General Nunda o, então secretário de Informação, Rui Falcão, a vice-ministra da Educação e uma série de personalidades importantes da sociedade. Creio que o problema foi não termos colocado a chancela do Ministério, não havia razão para isso. Meses depois, encontrei o Juca Ferreira, que era, à época, Ministro da Cultura do Brasil, e ele disse-me que a Ministra havia ligado fazendo queixa de mim. Queixando-se que eu fizera um trabalho sem visão antropológica. Ele respondeu que eu não era antropólogo, era um fotógrafo. Isto me pareceu um absurdo. Como é que um ministro de um país liga para o colega, de outro país, para apresentar queixa de um fotógrafo?

 Isso entristece-o?

Sim, entristece muito. A verdade é que o meu trabalho deu uma visibilidade grande àquelas populações. Penso que temos contribuído para uma boa imagem do país com esse trabalho que tem sido recebido internacionalmente de maneira extremamente positiva. Mas tenho esperança e torço muito para que ela faça uma revisão nesse assunto para podermos estar mais próximos, acho que todos ganharíamos. E é necessário dizer também que, por influência das restantes acções ou não, nos últimos anos o Estado tem estado mais atento às necessidades destas populações, sobretudo aquelas que se encontram na zona do Erora. Sei, por exemplo, que o Governo construiu lá uma escola e um posto de Saúde que vão inaugurar agora. Na localidade do Oncócua reforçaram a capacidade de atendimento e hoje contam com bons médicos cubanos. Estão também a reunir-se esforços para iniciativas como acesso ao exame de carga viral do HIV, através da contagem de linfócitos CD4. São iniciativas muito importantes, onde passou a se sentir a ação do Estado.  Sei que a FAO (Food and Agriculture Organization of the United Nations) também têm desenvolvido algumas acções na região, através de um projecto que pretende construir novas sondas de água para dar respostas à crise gerada pela seca dos últimos anos.. Há mais apoios, ainda faltam muitos, mas começam a surgir mais. 

Sei que havia a intenção de criar um Museu dos Hereros na Huíla. Como está esse projecto?

Foi uma proposta do Ministro da Administração do Território. O Ministro Bornito de Sousa chamou-me e disse que havia conversado com o governador da Huíla, que era, na época, Isaac dos Anjos, para que quando terminasse a itinerância da exposição a gente montasse na Huíla um Museu dos Hereros. Fiquei muito entusiasmado, seria a forma mais bonita de finalizar esse trabalho. Infelizmente, desde então, nunca mais soube nada.

O seu documentário, “Hereros”, foi selecionado para diversos festivais internacionais. Contudo, não foi seleccionado para o Festival Internacional de Cinema de Luanda. Ficou surpreendido?

Claro. Penso que ficou estranho a não seleccionarem o filme para ser projectado em Luanda. Estamos a participar em vários festivais, no Brasil, Portugal, Quénia, Uruguai e Itália. Em Angola, onde o filme foi captado e trata de um aspecto directo da cultura angolana, não atendeu aos requisitos para ser seleccionado? Acho estranho. Repare que eu digo seleccionado para ser projectado, não estou referir-me a premiações. São coisas que acabam por nos entristecer depois de tanto esforço num projecto independente, que não recebeu nenhum apoio financeiro do Estado. Tivemos apoio apenas na primeira edição do livro através do BAI, e na exposição realizada em São Paulo, através da UNITEL. 

Ao longo destes anos, dessas repetidas visitas ao deserto, certamente encontrou personagens interessantes. Recorda alguma que o tenha impressionado em particular?

Recentemente tomei contacto com um “tchingailume”, a designação atribuída a homens que têm identidade de género feminino. É algo muito antigo. São personagens protegidos pelos mais-velhos e pelas respectivas famílias. Às mulheres que têm um comportamento masculino, que se integram no mundo dos homens, chamam “mukaidio”.

A existência destas figuras tradicionais contradiz a tese tão divulgada em África de que esses comportamentos são estranhos à cultura africana – não?

Sem dúvida. Veja que os nomes que designam essas pessoas são nomes tradicionais, o que indica uma antiguidade na incidência dessas pessoas com uma identidade de género feminino, no caso dos homens. Isso, penso eu, desmonta esse argumento da homossexualidade ser introduzida por uma cultura ocidental. Mas é claro que existe algum tabu em relação a isso, são personagens que eu só descobri há pouco, após cinco ou seis anos de intimidade com estas populações. Quem me falou destas pessoas foi o soba Bernardo, um dos informadores do Rui Duarte de Carvalho. Contudo, ele disse que com o Rui nunca falou sobre o tema. Um dia, no Rio de Janeiro, entrei num restaurante com o soba Bernardo e vimos um travesti, e eu comentei “está vendo aquela mulher tão bonita? É um homem”. Ele não pareceu muito surpreendido e explicou que aquela era uma situação que acontecia entre os Hereros. Então, estou sempre descobrindo coisas novas. 

O curador das exposições dos Hereros é uma figura muito importante da cultura afro-brasileira, Emanoel Araújo, artista plástico e director do Museu Afro-Brasil. Como surgiu esta ligação?

O Emanoel Araújo viu o trabalho, gostou, e ele mesmo se propôs a organizar uma exposição no Museu Afro-Brasil, em São Paulo, e aceitou fazer a curadoria. Com o Emanoel, a exposição ganhou uma outra dimensão.

Ele é, para mim, um dos maiores nomes da museologia brasileira, um grande artista plástico, uma pessoa com um pensamento estruturado e com uma capacidade de coordenação muito grande. Foi ele quem resgatou e reformulou a Pinacoteca de São Paulo, levantou o Museu Afro-Brasil. Depois de São Paulo, a exposição seguiu para Brasília, para o Museu Nacional, um lugar privilegiado, na explanada dos ministérios, um projecto do Niemeyer. Eu sou muito grato ao Emanoel, penso que ele viu coisas que eu não tinha visto e vem mexendo com a minha forma de fotografar.

A existência destas figuras tradicionais contradiz a tese tão divulgada em África de que esses comportamentos são estranhos à cultura africana – não?

Sem dúvida. Veja que os nomes que designam essas pessoas são nomes tradicionais, o que indica uma antiguidade na incidência dessas pessoas com uma identidade de género feminino, no caso dos homens. Isso, penso eu, desmonta esse argumento da homossexualidade ser introduzida por uma cultura ocidental. Mas é claro que existe algum tabu em relação a isso, são personagens que eu só descobri há pouco, após cinco ou seis anos de intimidade com estas populações. Quem me falou destas pessoas foi o soba Bernardo, um dos informadores do Rui Duarte de Carvalho. Contudo, ele disse que com o Rui nunca falou sobre o tema. Um dia, no Rio de Janeiro, entrei num restaurante com o soba Bernardo e vimos um travesti, e eu comentei “está vendo aquela mulher tão bonita? É um homem”. Ele não pareceu muito surpreendido e explicou que aquela era uma situação que acontecia entre os Hereros. Então, estou sempre descobrindo coisas novas.

O curador das exposições dos Hereros é uma figura muito importante da cultura afro-brasileira, Emanoel Araújo, artista plástico e director do Museu Afro-Brasil. Como surgiu esta ligação?

O Emanoel Araújo viu o trabalho, gostou, e ele mesmo se propôs a organizar uma exposição no Museu Afro-Brasil, em São Paulo, e aceitou fazer a curadoria. Com o Emanoel, a exposição ganhou uma outra dimensão.

Ele é, para mim, um dos maiores nomes da museologia brasileira, um grande artista plástico, uma pessoa com um pensamento estruturado e com uma capacidade de coordenação muito grande. Foi ele quem resgatou e reformulou a Pinacoteca de São Paulo, levantou o Museu Afro-Brasil. Depois de São Paulo, a exposição seguiu para Brasília, para o Museu Nacional, um lugar privilegiado, na explanada dos ministérios, um projecto do Niemeyer. Eu sou muito grato ao Emanoel, penso que ele viu coisas que eu não tinha visto e vem mexendo com a minha forma de fotografar.

Além das fotos a exposição integra objectos do dia a dia dos Hereros…

Sim, decidimos integrar esses adereços. Cada vez que vou ao Sul recebo mais material. Estas peças não têm uma pretensão antropológica, mas artística. Isso, o Emanoel deixou bem claro – é uma exposição artística, não antropológica. Usamos os adereços para enriquecer a mostra.

E depois de Brasília?

Depois fomos para o Rio de Janeiro, para o Museu Histórico Nacional, e do Rio para Madrid, para o Centro Cultural Conde Duque, hoje um dos principais centros de arte contemporânea da Europa. A seguir fomos para Valência, para o Museu de Etnologia. E agora estamos em Florença, até ao final de Setembro, onde temos recebido o maior número de visitantes. Florença recebe nove milhões de pessoas todos os anos entre os meses de Julho e Setembro. Tenho acompanhado através da Diretora do Palazzo Médici,  Antonella Lerardi, o sucesso da mostra,e menos de um mês de exposição ela já teve que trocar o livro de assinaturas.

Existem outras propostas?

Sim, recebemos um convite para o México, devemos abrir a exposição na Cidade do México no começo de Dezembro.  A ideia é fazer primeiro a Cidade do México e depois deveremos ter uma itinerância por cinco ou seis províncias, financiada pelo Estado mexicano. Então a exposição deverá passar quase um ano por lá.

Tem outros projectos em mente, depois desse álbum a preto e branco, com fotografias dos Hereros?

Sim, tenho um projecto para fotografar os muçulmanos em Luanda. É algo em que estou a começar a pensar agora.

http://www.redeangola.info/especiais/a-minha-fotografia-tem-um-claro-vies-social/ 


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